É melhor ter perna de pau que cara de pau!

Uma investigação realizada pelo Centro de Estudos Aplicados da Universidade Católica e apoiada pela Microsoft inspira um vídeo da Associação Portuguesa de Software cujo dramatismo mais leve faz no entanto lembrar as tácticas de um outro infame vídeo da indústria cinematográfica. Nele alega-se como verdade absoluta que:

“Num pequeno país como Portugal, a grande vítima da pirataria não são os grandes produtores de software, é Portugal”

É falso, e vamos dizer porquê, mas antes de mais vamos ver quem são esses produtores a quem estes estudos se referem. Seja o resumo do relatório da BSA que sustenta o estudo ou o documento completo, esquecem-se de mencionar esses grandes produtores, mas o relatório do SIIA enumera alguns dos suspeitos do costume: Adobe, Apple, Autodesk, Borland, Citrix, Corel, Dow Jones & Company, Filemaker, IBM, Intuit, J.J. Keller & Associates, Kaplan, Inc., McAfee, Merge Healthcare, The McGraw-Hill, Companies Inc., New Vision Software, Inc. (SofTutor), Nero, Novell, Oracle, Quark, Reed, Elsevier Inc., Sonic Solutions, Symantec, United Press International.

“Cada acto de pirataria significa menos impostos pagos pela indústria de software”

É falso. Na realidade quem paga, em Portugal, os impostos do software destas empresas, neste caso o IVA, são os compradores. Já um eventual IRC das empresas que o vendem é pago nos países de origem onde o software é produzido, e como tal Portugal recebe 0€ dessa “indústria de software”.

“menos mercado para as empresas portuguesas de tecnologias de informação”

É falso. No limite a pirataria permitiu a muitas empresas de TI erguerem-se enquanto não geravam receitas suficientes para legalizar o software que usaram para se desenvolver. Deviam no entanto ter optado por software livre desde o início ganhando assim ainda mais competitividade.

 

“menos trabalho para os profissionais de informática portugueses”

É falso. Basta compreender o ponto anterior para se perceber que os dois estão interligados, logo com mais mercado para as empresas, mais trabalho para os profissionais.

“menos dinheiro para a economia nacional”

É falso. Todo o dinheiro que o estudo indica como tendo sido o valor de mercado perdido para a pirataria é dinheiro que teria sim sido retirado da economia nacional directamente para os cofres das empresas estrangeiras mencionadas. Em 2011 foram alegadamente 245 milhões de dólares, ou seja quase 196 milhões de euros, que ao não terem sido gastos e perdidos para o estrangeiro em importações de software, das duas uma:

  • Ou foram poupados, algo que se apregoa ser essencial os portugueses aprenderem a fazer para não “viverem acima das suas possibilidades”, e ficaram então disponíveis nos bancos para empréstimos a outros portugueses que os puderam injectar na economia nacional;
  • Ou foram gastos à mesma, e dependendo da condição económica da maioria das pessoas, provavelmente em bens essenciais, água, luz, gás, habitação, transportes e demais necessidades providenciadas por empresas nacionais, representando também mais dinheiro a circular na economia nacional.

Na realidade será um misto das duas hipóteses, sendo também que os impostos ao estado acabam sempre por ser pagos de uma maneira ou de outra.

“Achamos sempre que a culpa é dos governantes e grandes empresários”

É falso, ou talvez não, desde que se mude o objecto da culpa. O que é quase sempre culpa da maioria dos governantes e grandes empresários dessas produtoras de software é a promiscuidade entre ambos. Indo à base de contratos públicos online, procurando pela empresa mais óbvia, a Microsoft, e ordenando por valor, só os primeiros 7 dos 629 contratos registados somam 26.379.918€41 pagos por licenças à gigante dos Estados Unidos da América, e isso ainda nem inclui os 9.301.383€, sem IVA, que o governo PSD pagou já este ano para renovar as licenças de software Microsoft de apenas um Ministério (o MAI). É exactamente o mesmo PSD que no ano passado, ainda na oposição, defendia a adopção de software livre no Estado para reduzir a despesa. Alias, parece apanágio deste governo fazer exactamente o oposto de tudo o que dizia querer fazer, mas isso já seriam contos para outros Natais…

“Que nós não podemos fazer nada. Claro que podemos.”

É verdade! Como em todos os casos, há sempre uma excepção à regra, neste caso, uma verdade num mar de falsidades. Podemos sempre fazer algo para baixar a pirataria, mas não com repressão ou sanções, e sim mostrando às pessoas que não é preciso piratear software quando há sempre alternativas gratuitas tão boas ou melhores ainda que as pagas.

“Se reduzirmos a pirataria em 10% nos próximos quatro anos, isso significa”

Em bom rigor, e vendo a intenção expressa no vídeo, seriam “10 pontos percentuais, de 40% para 30%”, porque reduzir 40% “em 10%” é reduzir 4 pontos percentuais, ou seja, para 36%. Seria bom ter algumas noções de matemática e estatística entre outras disciplinas quando se quer parecer competente e sério, principalmente ao apresentar distorções à realidade tão ridículas.

“+ 4244 postos de trabalho”

É fal…perdão…é hilariante ver um número tão específico baseado em percentagens estimadas e altamente duvidosas (o método explica como se obtêm as percentagens mesmo na ausência de uma pesquisa actualizada em Portugal) Se fizéssemos especulações dessa natureza, mas baseadas em valores reais de despesas perdulárias, poderíamos começar por pegar só nos 9.301.383€ pagos este ano pelas licenças Microsoft do MAI para os próximos 3 anos e depois extrapolar as despesas com todos os outros ministérios da Administração Pública Central (APC) baseados em dados não actualizados de estudos estatísticos sobre as TIC no estado e o Boletim de Estatística do Emprego Público actualizado. O MAI conta com 49.833 funcionários e 21% desse número em computadores ou seja 10.465 unidades. A totalidade da APC tem no total 512.355 funcionários e 45% desse numero em computadores ou seja 230.560 unidades. Com uma regra de 3 simples a estimativa para licenças da Microsoft em todos os ministérios dá um total de 204.924.881€40, mais até do que a totalidade dos 196 milhões alegadamente perdidos para a pirataria. Fazendo contas a esses 3 anos, e pagando em cada um só 12 meses (porque o governo rouba os subsídios) de ordenado mínimo (por causa da austeridade) dava para 11.737 postos de trabalho na função pública desde já, e não só 4244 ao fim de 4 anos, ou então para 4244 postos de trabalho desde já com um salário de 1.341€27 mensais. E é claro, isto é, só uma estimativa para os produtos da empresa de software que apoiou o estudo da Universidade Católica, há mais empresas e muitos mais milhões perdidos da economia nacional esbanjados em software estrangeiro com alternativas gratuitas.

“+ 320 milhões de euros pagos em impostos a Portugal”

É falso. Como explicado mais acima não são impostos pagos “a” Portugal por entidades externas, mas sim pelo mesmo Portugal, neste caso pelos portugueses em IVA a si próprios na pessoa do Estado, e que serão sempre pagos de qualquer modo quaisquer que sejam as compras feitas com o dinheiro não gasto nesse software. Como curiosidade este valor daria uma média de 80 milhões anuais quando na estimativa do estudo de 2011 o valor do IVA terá sido pouco mais de metade disso, à volta dos 44,993,612€23. Tentar empolar um valor ainda por cima numa vertente irrelevante é no mínimo hilariante.

“Devolver 1150 milhões de euros à economia portuguesa, 0,6% do PIB”

É falso. O que a compra desse software causaria na realidade seria a perda de “1150 milhões de euros” da “economia portuguesa” para os cofres das empresas mencionadas. Quer-nos parecer que a opção pelo software livre é realmente o melhor caminho a seguir para ajudar a economia portuguesa sem recorrer à pirataria, mas que também a pirataria em si ao contrario de retirar quaisquer “euros à economia portuguesa” evita a sua perda.

“Não é por acaso que os piratas tinham perna de pau, Piratear é um tiro no pé”

Não é por acaso que os lóbis anti-pirataria têm cara de pau. Manipular é não ter vergonha na cara!


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12 comentários de É melhor ter perna de pau que cara de pau!

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